Entre abril de 2013 e março de 2014 estudei na Okinawa International University, em japonês “Okinawa Kokusai Daigaku” – abreviada e conhecida como “Okikoku”. Também morei num prédio em frente à universidade, localizada na cidade de Ginowan. Vivendo lá, conheci algo que logo virou parte da minha rotina: grandes e barulhentos helicópteros militares norte-americanos voando de manhã, tarde e noite.
A universidade (e meu antigo apartamento) são bem próximos à controversa Base Aérea de Futenma – Marine Corps Air Station Futenma, considerada a mais perigosa do mundo, pois se localiza numa área residencial, bem no meio da populosa cidade de Ginowan. Os riscos já eram conhecidos há muito tempo, e há 11 anos o indesejável aconteceu: um helicóptero caiu na universidade.




No dia 15 de agosto de 2004, Okinawa vivia mais um verão. E os estudantes aproveitavam suas férias. Felizmente, a universidade, estava praticamente vazia quando um helicóptero CH-53D caiu perto do prédio da administração.
O helicóptero havia partido da Base Aérea de Futenma para um treinamento rotineiro, e estava retornando quando teve problemas e desceu espiralando pelo ar. Os danos foram minimizados pelo fato do helicóptero ter atingido a escada externa de emergência (o que absorveu o impacto da queda) e o lado do prédio sem janelas, na altura do 3º andar. Por sorte, a sala atingida, que teve um pedaço de concreto arremessado pelo impacto do causado na parede externa, estava vazia no momento. Ao atingir o térreo, janelas estouraram e pedaços de concreto foram atirados para dentro da sala, que estava vazia, pois os funcionários estavam de férias.






Algumas partes do helicóptero foram arremessadas para o outro lado da rua, uma área residencial, chegando a 300 metros do local do acidente. Um fragmento derrubou uma motocicleta estacionada na rua. Janelas, paredes e portas de casas e apartamentos foram atingidos. Uma peça por pouco não atingiu a cabeça de um bebê, que dormia em seu quarto. A apenas 100 metros do local, há um posto de gasolina, uma creche e uma escola. Milagrosamente, não houve mortos e (civis) feridos.
Uma espessa fumaça preta subia quando os primeiros fuzileiros navais (“marines”, membros do United States Marine Corps) chegaram, minutos após a queda. No helicóptero havia somente 3 pessoas, que foram resgatadas antes que o fogo se espalhasse e os destroços explodissem. Há relatos de que havia feridos mas não foram divulgadas maiores informações e nem a identidade dos tripulantes.
Então, os fuzileiros cercaram e ocuparam a área do acidente, incluindo o estacionamento e o prédio atingido. Não houve esforço em verificar se havia feridos na universidade e na vizinhança. Quando perceberam que destroços estavam espalhados pela rua, somente se preocuparam em vigiar as peças, até que fossem retiradas do local.
Os bombeiros chegaram rapidamente. Porém, os fuzileiros se negaram a informar o que o helicóptero carregava, dificultando a avaliação de quais métodos utilizar para apagar o fogo e ao mesmo tempo garantir a segurança. Posteriormente, foi divulgado que havia estrôncio-90, isótopo radioativo nocivo à saúde. A quantidade não foi informada, e por não ter sido encontrado, especula-se que tenha se dispersado com o fogo e a fumaça.
À polícia japonesa, que chegou depois, foi negado o direito de investigação – somente foi permitido que guardassem a área cercada. Nem ao prefeito da cidade de Ginowan foi permitida a entrada. Numa bizarra coincidência, no momento do acidente ele estava em uma reunião sobre a base de Futenma, assistindo um video que mostrava helicópteros sobrevoando áreas residenciais.
Depois de 3 dias, o Vice Comandante Geral do US Marine Corps Bases no Japão, Brig. Gen. James F. Flock, foi à universidade se desculpar. Entretanto, na ocasião não foi permitido à polícia japonesa investigar, o que aconteceria após alguns dias – somente depois dos destroços serem removidos, inclusive parte do solo superficial.
O procedimento e a postura adotados pelos fuzileiros foram bastante criticados, pois feriu o princípio de soberania nacional do Japão (uma vez que o acidente ocorreu em território civil e a polícia e o corpo de bombeiros foram impedidos de cumprir suas funções) e de autonomia da universidade, pois o diretor e os funcionários foram impedidos de entrar em seus local de trabalho. Além disso, cerca de 30 árvores, com importância histórica para a universidade, foram removidas sem permissão – foi enviada apenas uma notificação de que seriam retiradas 6 árvores.
Outro aspecto bastante questionado foi a tentativa de impedir que imprensa e civis tirassem fotos e filmassem o local, ainda que estivessem fora da área cercada. Soldados ordenavam: “No pictures!”, tentando confiscar câmeras, inclusive a da emissora Asahi TV.
O fato de não ter havido mortes é atribuído a uma série de casualidades (era férias, a queda foi amortecida e aconteceu no lado do prédio sem janelas, os destroços não acertaram pedestres) que levaram a um “milagre”. É certo que muitas pessoas – estudantes, trabalhadores, moradores – sentiram o perigo bem de perto, junto com um alívio por ter escapado de algo pior, mas que ainda pode acontecer.





E depois de 11 anos do acidente, ainda há muitos problemas. A Base Aérea de Futenma continua em funcionamento, envolvida em diversas polêmicas. Uma delas foi a introdução dos Ospreys MV-22 na frota da base, em 2013. Basicamente, Ospreys são aeronaves que decolam como helicópteros e voam como aviões, numa velocidade máxima de 520 km/h, com capacidade para 24 tripulantes. Muitos okinawanos protestaram contra a introdução dos Ospreys decido ao alto índice de acidentes, como os que ocorreram na Flórida e no Marrocos em 2012.
Outra polêmica é o tema da realocação da Base de Futenma. Devido à sua periculosidade, foi acordado que a Base de Futenma seja devolvida para uso civil. Em troca, foi exigida a construção de uma nova base na região norte da ilha, em Henoko, área com poucos habitantes. Entretanto, a construção aterraria grande parte da Baía de Oura, área que abriga muitos recifes de corais e o mamífero marinho dugongo, que corre risco de extinção.
As bases militares em Okinawa, que começaram a ser implantadas logo após o término da guerra, já tem décadas de história de acidentes e injustiças cometidas contra o povo okinawano. Porém, o consenso entre habitantes e governantes em relação ao futuro das bases em Okinawa ainda parece estar longe de existir. Até que seja encontrada uma solução, a alternativa parece ser torcer para que não ocorram mais acidentes (apesar do último ter ocorrido essa semana, deixando 7 feridos). Ou protestar para que elas sejam totalmente eliminadas do dia a dia dos okinawanos.




Fonte:
http://noflyzone.homestead.com/files/the_aftermath.htm
http://ajw.asahi.com/article/behind_news/social_affairs/AJ201310070085

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