A queda do helicóptero na Okinawa International University

Entre abril de 2013 e março de 2014 estudei na Okinawa International University, em japonês “Okinawa Kokusai Daigaku” – abreviada e conhecida como “Okikoku”. Também morei num prédio em frente à universidade, localizada na cidade de Ginowan. Vivendo lá, conheci algo que logo virou parte da minha rotina: grandes e barulhentos helicópteros militares norte-americanos voando de manhã, tarde e noite.

A universidade (e meu antigo apartamento) são bem próximos à controversa Base Aérea de Futenma – Marine Corps Air Station Futenma, considerada a mais perigosa do mundo, pois se localiza numa área residencial, bem no meio da populosa cidade de Ginowan. Os riscos já eram conhecidos há muito tempo, e há 11 anos o indesejável aconteceu: um helicóptero caiu na universidade.

A Base de Futenma (área verde à direita) e a proximidade com a área residencial (à esquerda)
A Base de Futenma (área verde à direita) e a proximidade com a área residencial (à esquerda) – foto tirada da universidade (06/2013)
Helicóptero visto da universidade
Helicóptero visto da universidade (06/2013)
Helicóptero visto do meu apartamento
Helicóptero visto do meu apartamento (06/2013)
Helicóptero CH-53D na Base de Futenma, mesmo modelo que caiu na universidade
Helicóptero CH-53D na Base de Futenma, mesmo modelo que caiu na universidade

No dia 15 de agosto de 2004, Okinawa vivia mais um verão. E os estudantes aproveitavam suas férias. Felizmente, a universidade, estava praticamente vazia quando um helicóptero CH-53D caiu perto do prédio da administração.

O helicóptero havia partido da Base Aérea de Futenma para um treinamento rotineiro, e estava retornando quando teve problemas e desceu espiralando pelo ar. Os danos foram minimizados pelo fato do helicóptero ter atingido a escada externa de emergência (o que absorveu o impacto da queda) e o lado do prédio sem janelas, na altura do 3º andar. Por sorte, a sala atingida, que teve um pedaço de concreto arremessado pelo impacto do causado na parede externa, estava vazia no momento. Ao atingir o térreo, janelas estouraram e pedaços de concreto foram atirados para dentro da sala, que estava vazia, pois os funcionários estavam de férias.

crash1 poucos min apos o acidente
Foto tirada logo após o acidente
crash3 bombeiros chegam e temem pelo que ha no helicop
Marcas no prédio atingido
crash9
Prédio e destroços vistos pelo outro lado da rua
crash6 1o andar
Parte que atingiu o andar térreo, quebrando janelas
crash2 pilot and crew were rescued before the fire reach them
Destroços explodiram depois da queda
crash8 topo do predio
Destroços vistos do topo do prédio atingido

Algumas partes do helicóptero foram arremessadas para o outro lado da rua, uma área residencial, chegando a 300 metros do local do acidente. Um fragmento derrubou uma motocicleta estacionada na rua. Janelas, paredes e portas de casas e apartamentos foram atingidos. Uma peça por pouco não atingiu a cabeça de um bebê, que dormia em seu quarto. A apenas 100 metros do local, há um posto de gasolina, uma creche e uma escola. Milagrosamente, não houve mortos e (civis) feridos.

Uma espessa fumaça preta subia quando os primeiros fuzileiros navais (“marines”, membros do United States Marine Corps) chegaram, minutos após a queda. No helicóptero havia somente 3 pessoas, que foram resgatadas antes que o fogo se espalhasse e os destroços explodissem. Há relatos de que havia feridos mas não foram divulgadas maiores informações e nem a identidade dos tripulantes.

Então, os fuzileiros cercaram e ocuparam a área do acidente, incluindo o estacionamento e o prédio atingido. Não houve esforço em verificar se havia feridos na universidade e na vizinhança. Quando perceberam que destroços estavam espalhados pela rua, somente se preocuparam em vigiar as peças, até que fossem retiradas do local.

Os bombeiros chegaram rapidamente. Porém, os fuzileiros se negaram a informar o que o helicóptero carregava, dificultando a avaliação de quais métodos utilizar para apagar o fogo e ao mesmo tempo garantir a segurança. Posteriormente, foi divulgado que havia estrôncio-90, isótopo radioativo nocivo à saúde. A quantidade não foi informada, e por não ter sido encontrado, especula-se que tenha se dispersado com o fogo e a fumaça.

À polícia japonesa, que chegou depois, foi negado o direito de investigação – somente foi permitido que guardassem a área cercada. Nem ao prefeito da cidade de Ginowan foi permitida a entrada. Numa bizarra coincidência, no momento do acidente ele estava em uma reunião sobre a base de Futenma, assistindo um video que mostrava helicópteros sobrevoando áreas residenciais.

Depois de 3 dias, o Vice Comandante Geral do US Marine Corps Bases no Japão,  Brig. Gen. James F. Flock, foi à universidade se desculpar. Entretanto, na ocasião não foi permitido à polícia japonesa investigar, o que aconteceria após alguns dias – somente depois dos destroços serem removidos, inclusive parte do solo superficial.

O procedimento e a postura adotados pelos fuzileiros foram bastante criticados, pois feriu o princípio de soberania nacional do Japão (uma vez que o acidente ocorreu em território civil e a polícia e o corpo de bombeiros foram impedidos de cumprir suas funções) e de autonomia da universidade, pois o diretor e os funcionários foram impedidos de entrar em seus local de trabalho. Além disso, cerca de 30 árvores, com importância histórica para a universidade, foram removidas sem permissão – foi enviada apenas uma notificação de que seriam retiradas 6 árvores.

Outro aspecto bastante questionado foi a tentativa de impedir que imprensa e civis tirassem fotos e filmassem o local, ainda que estivessem fora da área cercada. Soldados ordenavam: “No pictures!”, tentando confiscar câmeras, inclusive a da emissora Asahi TV.

O fato de não ter havido mortes é atribuído a uma série de casualidades (era férias, a queda foi amortecida e aconteceu no lado do prédio sem janelas, os destroços não acertaram pedestres) que levaram a um “milagre”. É certo que muitas pessoas – estudantes, trabalhadores, moradores – sentiram o perigo bem de perto, junto com um alívio por ter escapado de algo pior, mas que ainda pode acontecer.

crash14 marine protegendo peca
Soldado vigia destroço caído na vizinhança. Atrás, motocicleta atingida.
crash policia chega
Polícia japonesa chega ao local. No canto esquerdo superior, é possível ver o prédio onde eu morava.
crash18 toguchi diretor, esperando acesso
Diretor Toguchi aguarda permissão para entrar, que foi negada várias vezes
crash21 pessoas sem identificacao
Americanos sem identificação permanecem na área isolada
no pictures
Soldado ordena: “No pictures!”

E depois de 11 anos do acidente, ainda há muitos problemas. A Base Aérea de Futenma continua em funcionamento, envolvida em diversas polêmicas. Uma delas foi a introdução dos Ospreys MV-22 na frota da base, em 2013. Basicamente, Ospreys são aeronaves que decolam como helicópteros e voam como aviões, numa velocidade máxima de 520 km/h, com capacidade para 24 tripulantes. Muitos okinawanos protestaram contra a introdução dos Ospreys decido ao alto índice de acidentes, como os que ocorreram na Flórida e no Marrocos em 2012.

Outra polêmica é o tema da realocação da Base de Futenma. Devido à sua periculosidade, foi acordado que a Base de Futenma seja devolvida para uso civil. Em troca, foi exigida a construção de uma nova base na região norte da ilha, em Henoko, área com poucos habitantes. Entretanto, a construção aterraria grande parte da Baía de Oura, área que abriga muitos recifes de corais e o mamífero marinho dugongo, que corre risco de extinção.

As bases militares em Okinawa, que começaram a ser implantadas logo após o término da guerra, já tem décadas de história de acidentes e injustiças cometidas contra o povo okinawano. Porém, o consenso entre habitantes e governantes em relação ao futuro das bases em Okinawa ainda parece estar longe de existir. Até que seja encontrada uma solução, a alternativa parece ser torcer para que não ocorram mais acidentes (apesar do último ter ocorrido essa semana, deixando 7 feridos). Ou protestar para que elas sejam totalmente eliminadas do dia a dia dos okinawanos.

Painel de protesto de estudantes contra a ocupação após o acidente
Painel de protesto de estudantes contra a ocupação após o acidente
Pedaço de árvore que restou após o acidente
Pedaço de árvore que restou após o acidente, muito visitada por excursões e grupos de estudo (05/2013)
Protesto contra Ospreys e a Base de Futenma em frente à base e à prfeitura
Protesto contra Ospreys e a Base de Futenma em frente à base e à prefeitura (08/2013)
Henoko
Henoko – cartazes de protesto contra a construção da base (09/2013)

Fonte:

http://noflyzone.homestead.com/files/the_aftermath.htm

http://ajw.asahi.com/article/behind_news/social_affairs/AJ201310070085


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Comentários

4 respostas a “A queda do helicóptero na Okinawa International University”

  1. Avatar de Helio Higa
    Helio Higa

    Esta questão das bases militares americanas devem ser discutidas seriamente no seio da comunidade okinawana no Brasil.
    Tenho investigado o assunto nos últimos 15 anos, tendo traduzido vários textos que posso colocar a disposição

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    1. Avatar de okinawando

      Olá, Helio,
      Muito obrigada!!
      Estamos plenamente de acordo que esse assunto tem que ser discutido!
      Aliás, li seu artigo no Utiná Press desse mês! Muito legal! Também gostaria muito que o tema da independência fosse mais discutido por aqui. Espero que o público se interesse e acesse a página do ACSILS.

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  2. […] pelo governo japonês e norte-americano. Inclusive, já houve um grave acidente em 2004, com a queda do helicóptero na Okinawa International University. Dessa forma, a realocação para uma área menos populosa foi a solução acordada entre os […]

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  3. […] Em 2013 foi lançado o filme “Himawari” (“沖縄は忘れない、あの日の空を~”), que conta a história de um homem que sobreviveu ao acidente de Miyamori e, décadas depois, tem que lidar com seus traumas quando um helicóptero cai na Okinawa International University. […]

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