Ontem, dia 15 de julho, foi o último dia do Obon. Nessa data, nossos antepassados vêm nos visitar, ficando 3 dias entre nós. Acendemos senkō e colocamos comida no butsudan.

Eu não pretendia escrever sobre o Obon, porque não consegui estudar muito sobre o tema. Mas, em 2 anos vivendo em Okinawa (o que significa 2 Obon passados lá), reparei em muitas coisas que nunca tinha percebido se fazia ou não na minha própria casa. E nesses dias fiquei comparando tudo e enchendo meus ojis e obas com um monte de perguntas. Então, aqui vai um relato bem pessoal (e resumido) de algumas dessas comparações.
1. Em Okinawa, o Obon é celebrado no dia 15 de julho do “kyūreki”, o calendário lunar (que em 2015 corresponde ao dia 28 de agosto do nosso calendário, o gregoriano). No Brasil, a maioria das famílias faz o Obon no dia 15 de julho. Por quê a diferença?
Quando perguntei pro meu oji, ele disse que no Brasil seria mais difícil definir o 15 de julho do calendário lunar, pois nele as datas variam todo ano em relação ao gregoriano. Depois ele complementou dizendo que na Era Meiji o governo japonês já havia feito uma tentativa de impor o calendário gregoriano, mas acabou não dando certo com os okinawanos. Mas ao chegarem aqui os imigrantes adotaram o calendário gregoriano. Porém, o ponto negativo é que certas características dos eventos muitas vezes não coincidem com o calendário gregoriano. Por exemplo, no Obon do calendário lunar a lua é cheia, e no gregoriano, não necessariamente (depende do ano, mas é difícil coincidir).
2. Os 3 dias do Obon são: Unkē (dia 13), Nakanuhī (dia 14) e Ūkui (dia 15). No Unkē os antepassados chegam, e começamos a colocar a comida no butsudan. Em Okinawa, vi que é o dia de comer jūshī (arroz temperado, com algas, vegetais e carne de porco). O Nakanuhī é o dia de comer nakami jiru, sopa de tripa de porco. Minha família não conhecia o costume de comer jūshī e o nakami jiru no Obon. Nesses dias, colocamos comida no butsudan mas não seguimos nenhuma regra.


Nesse Obon eu conversei bastante com meu oji sobre as várias diferenças que eu percebi, e ele me falou alguns motivos. Primeiro, queria salientar que ele é muito tranquilão – bem no estilo “nankuru naisā”. De acordo com ele, as coisas aqui no Brasil são diferentes, nós fazemos o que é possível. E ele faz desse jeito com a consciência tranquila porque ele combinou tudo com a minha bisavó antes dela falecer, em 2005. Ela nunca veio ao Brasil, mas foi acertado que, depois que ela falecesse, as cinzas, o butsudan, tudo, viria para o Brasil. Então, ela já sabia que a comida dela teria um gostinho brasileiro. Ele sempre fala desse acordo com um sorrisinho.
Mas talvez, acredito que meus avós não conheçam alguns dos costumes que atualmente são seguidos em Okinawa por terem vivido numa época diferente. Meu oji contou que às vezes não tinha nem arroz pra colocar no butsudan. Em vez disso, um dia meu bisavô colocou sal, e chorou, rezando e pedindo desculpas aos antepassados por não ter nada melhor pra oferecer. Se às vezes eles não tinham nem arroz, imagino a dificuldade em adquirir outras coisas para colocar no butsudan.
Outro motivo é para não deixar tudo muito complicado. Okinawa tem muitas e muitas datas em que temos que acender senkō. Mas aqui em casa foi decidido que só o faríamos no Ano novo, Obon, e os 2 Higan (equinócios), além dos dias 1 e 15 todos os meses. E iríamos ao cemitério no Dia de Finados, no dia 2 de novembro (e não em abril, como em Okinawa). Pelo que entendi, ele teme que se tivermos muitas obrigações, o butsudan acabe se tornando um fardo, e assim poderíamos largá-lo, como muitas famílias aqui no Brasil já fizeram.
Meu oji tirou muitas das minhas dúvidas e me deixou bastante tranquila em relação ao modo como fazemos as coisas na nossa família. Porém, o Obon me fez sentir saudades de Okinawa, pela primeira vez. Lá, o Obon é um evento importantíssimo, está em todo lugar – no mercado, na televisão, nas conversas. Aqueles que moram fora de Okinawa retornam à casa de sua família para saudar os antepassados e encontrar os parentes. À noite, os grupos saem para o chamado michijunē, dançando e passando pelas ruas do bairro. É bem diferente.

Na verdade, creio que as práticas em relação ao butsudan variam conforme a família não só no Brasil mas também em Okinawa. Entre todos os uchinanchus do mundo, quanta variedade de práticas deve existir, não é mesmo? E quantas histórias interessantes se escondem na trajetória dessas famílias que imigraram e trouxeram seus antepassados consigo? E você, como foi seu Obon? Conte pra gente!
Foto:
Nakami jiru: https://www.pinterest.com/pin/102738435223823521/

Deixar mensagem para Beatriz Nagahama Cancelar resposta