O Chá de Yamagusuku

Em novembro, à convite da Associação de Uruma Shiminkai do Brasil, tive a rara e grata oportunidade de conhecer a história e provar uma bebida que eu desconhecia totalmente – o Chá de Yamagusuku, numa degustação na Associação Okinawa Kenjin do Brasil, promovida por Satoshi Ishikawa, vindo de Okinawa.

Apresentação sobre a história do chá de Yamagusuku

Yamagusuku, que hoje é conhecida como “Yamashiro” (o nome japonizado), é um vilarejo que fica na grande cidade de Uruma, criada em 2005, a partir da fusão das cidades de Gushikawa, Ishikawa, Katsuren e Yonashiro. Yamagusuku fica em Ishikawa, localizada no norte da cidade, fazendo divisa com a cidade de Kin e, assim, com a região norte de Okinawa, caracterizada pelas montanhas e florestas.

Nesses morros surgiu a ideia, nos anos 1930, de começar o cultivo de chá, para gerar renda na região e evitar a saída dos jovens da vila, que, na falta de emprego, iam para cidades mais populosas, como a capital Naha. Com o apoio da administração pública, foram adquiridas algumas sementes. Apesar da falta de experiência, cerca de 100 famílias de lavradores se dedicaram ao cultivo, que prosperou e tornou a vila conhecida em toda a província.

Trecho do curta exibido na degustação: 
“Que tal abrirmos esta montanha e criarmos um campo de chá?”

Mesmo com a avassaladora Batalha de Okinawa e as inúmeras perdas, o cultivo se manteve após a guerra. Entretanto, em 2013, a produção de chá foi interrompida, pois os jovens estavam saindo da vila, não havendo mão-de-obra para dar continuidade ao ofício — o mesmo problema do século passado.

Até que chegou Satoshi Ishikawa. Apesar do sobrenome, ele não é de Ishikawa, mas sim de Shizuoka. Após anos vivendo em Okinawa, casou-se com uma mulher de Uruma. Já foi dono de um hostel e hoje possui dois 2 cafés (um deles é o Tettoh Coffee). Há cerca de 5 anos, começou a se dedicar à revitalização do chá de Yamagusuku.

Satoshi Ishikawa na plantação de chá.
Foto: RBC.
https://newsdig.tbs.co.jp/articles/rbc/1857925?page=2

Quando Ishikawa chegou na vila, estava tomada pelo mato. Mas, procurando, encontrou alguns pés de chá aqui e ali e, a partir daí, recomeçou o plantio. A produção ainda é pequena, praticamente artesanal e nas mãos de Ishikawa e de sua esposa. Ele me contou que hoje ele produz apenas 30 kg por ano, sendo que, antigamente, a quantidade chegava a 10 toneladas anuais. Isso também impacta no preço do produto — o pacote de 30g é vendido por mais ou menos 9.000 ienes (cerca de 300 reais). Também vende chinsukō (tradicional biscoito de Okinawa) no sabor de Yamasuguku-cha.

Pacote de 30g, que usamos inteiro nessa degustação
Chinsukō (tradicional biscoito de Okinawa) no sabor de Yamasuguku-cha

A planta do chá de Yamagusuku é mais resistente ao clima de Okinawa, quente, úmido e com tufões. O chá possui ação antioxidante, ação anti bactericida, combate sinais de envelhecimento, tem cafeína e te deixa mentalmente ativo. É também um dos poucos chás nativos (在来種) de Okinawa (talvez o único? não encontrei a informação), propagado no local através de sementes. A propósito, mesmo no Japão, o cultivo de chás nativos é muito baixo em relação ao todo, já que a maioria vem de mudas e plantas clonadas.

Antigamente, o chá produzido era o chá verde (ryoku-cha/緑茶). Hoje, Ishikawa produz o chá preto (kō-cha/紅茶), no qual as folhas passam por um processo de fermentação. Dessa forma, Ishikawa tem usado da sua expertise no produto. (Aliás, ele veio para o Brasil para conhecer mais sobre a torra de café daqui).

Preparando o chá

Em certo momento, Ishikawa comentou que havia alguns voluntários que o ajudavam na colheita, que é feita manualmente, retirando as folhas de cima, com o dedo em forma de pinça. Aliás, as folhinhas, que são a parte mais jovem e pura da planta, são o símbolo de paz e harmonia e também o símbolo da sua marca. Por conta das abelhas bem pequenas que se escondem na planta, é bem comum levar picadas. Por isso, parou de aceitar voluntários.

Uma das pessoas presentes na degustação trabalhava na colheita de chá antes de migrar para o Brasil. Ela conta: “Na minha época a gente cortava assim com a tesoura”, mostrando o gesto com as mãos. E, lembrando dos meus avós também, eu senti a diferença entre os uchinaanchu mais velhos, tão práticos, e nós, os modernos que focamos em processos e filosofias.

Foi um privilégio poder provar um chá nativo de Okinawa aqui no Brasil. Para mim, Okinawa é sempre uma caixinha de surpresas: quanto mais eu conheço e estudo, mais eu vejo quantas coisas eu não conheço. Da próxima vez, irei conhecer a fazenda de chá de Yamagusuku e sentir o característico aroma in natura.

Satoshi Ishikawa e membros da Associação Uruma Shiminkai.
Essa pose simboliza as folhinhas do chá.
Foto: Yuri Tengan.

Referências:

https://newsdig.tbs.co.jp/articles/rbc/1857925?display=1


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