Nessa última bolsa pra Okinawa, pela primeira vez eu não corri. Das outras vezes, foi meio que uma loucura, saindo, passeando. No ano que fui bolsista kenpi ryugakusei, eu fiz uma “promessa” de não negar nenhum convite. Então eu fui para TODOS os lugares que me chamaram — inclusive muitos rolês aleatórios, mas no fim foi tudo muito legal. Nessa energia de querer aproveitar ao máximo, também me forcei a conhecer a maior quantidade possível de sítios históricos e fiquei obcecada com locais relacionados à guerra.
Por um lado, era muito fácil (eles estavam em todos os lugares), mas por outro era difícil porque quase nunca estavam sinalizados, então era muito satisfatório encontrá-los depois de ficar rodando a área.
Hoje, eu vejo isso me fez meio mal, espiritualmente. Porém, acho que foi importante eu ter feito, pois me deu experiência e conhecimento para falar sobre a guerra.
E, dessa vez (2025), eu não procurei os lugares da guerra – na verdade, eu evitei (com algumas exceções, como museus).
Porém, teve um dia que caí numa “armadilha”.
Um dia, nos disseram para escolher um passeio na cidade de Yaese. Eram diferentes opções de trilhas. Eu fiquei animada, porque queria sair um pouco para a natureza, mas queria algo mais diferente. Escolhi pelo site um lugar bem good vibes: montanha, caverna bonitona e árvores gigantes, parecia uma mata mais fechada, uma trilha um pouco mais difícil.
Chegando lá, pasmem!, era um grande utaki e sítio de guerra.
CLARO QUE ERA, EM OKINAWA NA REGIÃO SUL VOCÊ ESPERAVA O QUÊ.
Mas não era o tipo de energia que eu tinha escolhido para lidar naquele momento, naquele dia.
Por mais que quase todos os matos de Okinawa sejam utaki, acho que tem lugares que não devem ser parte de um passeio turístico. No caso de visitas, acredito que as pessoas devem estar preparadas para isso e entrar de uma forma respeitosa e correta. Mas enfim, a maioria das pessoas não pensa assim e tudo bem, vida que segue.
Logo na entrada da mata, a guia contratada informou que era um utaki e apontou algumas pedras dispostas ali, formando um círculo. Ela pegou uma que estava no centro e se destacava das demais e nos trouxe, falando: “esta aqui é como se fosse um Buda, um Jesus Cristo, olha que legal”. Eu não falei nada, mas fiquei um pouco perplexa, um pouco irritada.

Subimos o morro com a natureza exuberante, que tinha uma vista belíssima para os mares do sul. Depois, descemos em direção às cavernas e aí eu entendi porque estávamos de luvas e capacete. Os caminhos eram bastante estreitos e íngremes.

Entrando na caverna, a guia apontou alguns objetos e aí fiquei sabendo que o lugar havia sido usado para soldados japoneses e civis se abrigarem. E era um dos “piores” sítios de guerra que eu já tinha visto, porque estava muito cru. Havia muitos itens jogados: sapatos, garrafa de vidro e sobretudo louças. São coisas que eu não vi muito em outras cavernas, a não ser aquelas com visitas guiadas sobre a guerra que os objetos estão “expostos”. Outras estão fechadas ou já têm os objetos debaixo de terra e mato, invisíveis para nós.
E, entre esses itens usados por pessoas que morreram, não sei se ali ou em outros lugares, ela dizia: “olha que luz linda”, “amo essa paisagem”, “nossa que mágico”, coisas desse tipo, numa energia tão rasa e good vibes que destoava demais do que eu estava vendo e sentindo ali.



Ela era yamatunchu, mas tinha aprendido o ofício de guia com um senhor uchinaanchu, que já faleceu. Eu me pergunto se ele era assim também, mas imagino que não, pois nunca vi okinawano desrespeitoso assim, especialmente os mais velhos. Independentemente da crença, existe respeito e, muitas vezes, até distância desses locais. (Obs: às vezes vem à tona casos de jovens que vandalizam sítios históricos, mas são exceção).
Por mais que eu soubesse há muito tempo que “a batalha de Okinawa está em todos os lugares” – inclusive, já estava falando isso nas palestras desde 2016 – eu fui pega desavisada.

Esse passeio me deixou de mau humor: o meu erro de principiante em achar que seria somente uma paisagem bonita, a postura tonta da guia, a minha calça nova que rasgou na bunda quando me apoiei na pedra para descer.
A guerra é um dos assuntos que mais me interessa e que eu acho muito importante. Porém, ir aos locais pessoalmente te conecta com energias extremamente pesadas, algo que, nos últimos anos tem me feito bastante mal (em outras palavras: estou pegando encostos). Por isso, tenho evitado a ida e focado mais nos estudos: ler, escrever e falar sobre. Mesmo sendo cansativo às vezes, é importante, e nem se compara à experiência de quem viveu a guerra.
Então, a conclusão sobre os sítios de guerra:
Se você procura você acha. Se não procura também acha. E, mesmo se você quiser evitar, você vai achar!

E, só para concluir: estou divulgando um curso no qual eu vou falar sobre a Batalha de Okinawa, mostrando os lugares que eu fui e coisas que eu aprendi, para que você não precise ir (ou para você saber como ir, se quiser).
Por quê é importante falar sobre a Batalha de Okinawa hoje, 80 anos depois?
Neste curso, você conhecerá as principais características e polêmicas envolvendo a Batalha de Okinawa e entenderá de que formas ela ainda ressoa na população. Você verá o resultado de mais de 10 anos de pesquisa, com várias viagens a Okinawa, incluindo visitas a sítios históricos relacionados à guerra, como cavernas e bunkers, museus e exposições.
Alguns dos temas que serão abordados: japonização de Okinawa, mulheres de conforto, estudantes na guerra, suicídio em massa, restos mortais não encontrados, bases militares.
CURSO: A BATALHA DE OKINAWA AINDA NÃO ACABOU
Ministrante: Satomi Matsumoto, pesquisadora e autora do blog Okinawando.
Datas: quartas-feiras – 16/jul, 23/jul, 30/jul, 6/ago
Horário: 20:00 às 22:00 (horário de Brasília)
Plataforma: Google Meet. As aulas gravadas serão disponibilizadas durante 1 mês.
Investimento: 150,00 (pagamento via pix)
Inscrição: bit.ly/curso-okinawa

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