Boletim Ikusa-yuu 02 – O início da guerra

Há uma certa discussão sobre a data do início da Batalha de Okinawa. Em 1944 já havia ocorrido o ataque ao Tsushima Maru e o Bombardeio de 10 de outubro, conforme tratamos no Boletim Ikusa-yuu 01. Porém, grande parte das pessoas rememora o início da guerra no dia 1º de abril, quando o exército estadunidense chegou à Ilha de Okinawa – a maior do arquipélago, onde se situa a capital Naha.

Entretanto, a data mais precisa conforme o ex-governador e professor Masahide Ota (in memorian) seria o dia 26 de março de 1945. Nesse dia, o exército dos EUA invadiu as Ilhas Kerama, que ficam a cerca de 30km de Naha.

Na esquerda: Ilhas Kerama. Na direita: Ilha de Okinawa, com flechas destacando a área onde houve a invasão pela frota dos EUA, na costa oeste: Yomitan, Kadena e Chatan.

A invasão das Ilhas Kerama

As Ilhas Kerama, hoje um paraíso turístico, são formadas pelas ilhas de Zamami, Tokashiki, Aka, Geruma e algumas ilhas inabitadas. O exército estadunidense escolheu Kerama, pois os canais entre as ilhas permitiam a ancoragem segura da frota, uma vez que as montanhas protegiam os navios de ventos vindos de todos os lados.

O exército japonês, entretanto, esperava que a invasão ocorresse na costa oeste da Ilha de Okinawa. Assim, estavam instalados nas Ilhas Kerama com uma frota de barcos suicidas com o objetivo de atacar o exército estadunidense por trás.

No dia 26 de março de 1945, os EUA lançaram bombardeios por aviões e navios e atracaram nas ilhas. Pegos de surpresa, os japoneses não conseguiram revidar, afundaram seus barcos por conta própria e recuaram para as montanhas, mudando a estratégia de ataque para defesa e assim, visando o prolongamento da batalha. Essa é uma das características da Batalha de Okinawa, que comentaremos depois.

Outra particularidade da Batalha de Okinawa, que apareceu logo nesses primeiros dias e depois se repetiu em outros lugares foi o suicídio forçado em massa. Os habitantes receberam orientações claras dos soldados japoneses. Jovens foram reunidos e receberam duas granadas: “uma para o soldado americano, outra para você”. O resultado foi centenas de vítimas. Na pequena Ilha de Tokashiki, entre os 1.447 habitantes, 562 morreram na guerra, sendo 330 suicídios. Lá estavam alocados cerca de 1.000 soldados desde 1944, sendo uma área designada como confidencial.

Além dos moradores e soldados japoneses, também havia coreanos: os gunpu, homens trazidos para construir as instalações militares e executar tarefas de alto risco e também as mulheres de conforto. Muitos foram vítimas em dobro, primeiro sendo levados à força de sua terra natal e depois morrendo na guerra, desamparados e longe de suas famílias.

Invasão das Ilhas Kerama
Fonte: Okinawa Prefectural Archives

A invasão da Ilha de Okinawa: Yomitan, Kadena e Chatan

Após a conquista das Ilhas Kerama, o exército estadunidense invadiu a Ilha de Okinawa (a maior do arquipélago, onde se situa a capital Naha) no dia 1º de abril de 1945. Com 10 encouraçados, 9 cruzadores, 23 destroyers e 117 canhoneiras, a enorme frota de 1.300 embarcações cercou 10km da costa oeste da ilha, nos municípios de Yomitan, Kadena e Chatan. (Veja o mapa no início do texto.)

Invasão da Ilha de Okinawa
Fonte: Okinawa Prefectural Archives

A área abrigava dois grandes aeroportos. O Aeroporto Norte, em Yomitan, havia sido construído em 1943. Escolas e casas da região foram tomadas para uso das tropas japonesas. Só na cidade, havia 12 casas de conforto. Como alternativa ao do norte, em caso de danos, o Aeroporto Central foi criado em 1944, após o confisco de terras agrícolas. Localizado nas atuais cidades de Chatan, Kadena e Okinawa, hoje é a Base Aérea de Kadena, uma das maiores dos EUA no Leste Asiático.

Os civis, incluindo estudantes a partir do 5º ano (11 anos de idade), foram mobilizados para a construção dessas instalações. Era comum trabalhar mais de 10 horas por dia, em tarefas como construção de valas antitanque, esconderijos de embarcações e enterramento de minas. Em fevereiro de 1945, foi ordenado que a população se refugiasse no norte da ilha, mas muitos hesitaram e permaneceram em seus vilarejos.

Ao contrário do esperado pelos estadunidenses, durante a invasão, no dia 1º de abril, não houve resistência pelo exército japonês. Como nas Ilhas Kerama, a estratégia foi o recuo para o interior. Dessa forma, no mesmo dia os aeroportos Norte e Central, que já haviam sido destruídos no Bombardeio de outubro de 1944, foram tomados.

Veja abaixo algumas fotos do Arquivo da Província de Okinawa, que demonstram certa tranquilidade do exército dos EUA ao chegar na Ilha de Okinawa. Vamos falar mais sobre a estratégia de guerra do Japão e suas consequências numa edição futura.

Dia 01/04/1945. Legenda original da foto: “Barco a caminho da Praia Verde. Mostra expressões relaxadas nos rostos dos homens devido ao desembarque quase sem resistência.”
Fonte: Okinawa Prefectural Archives
Dia 01/04/1945. Legenda original: “Páscoa em Okinawa, Ilhas Ryukyu, após o bombardeio ensurdecedor que precedeu o desembarque e a agitação da chegada. Usando o capacete do tipo futebol americano típico dos tripulantes de tanque, este fuzileiro naval fala de forma calma com seu recém-adotado mascote antes de levar o bode para o interior de seu tanque.”
Fonte: Okinawa Prefectural Archives

Muitos civis estavam escondidos nas abundantes cavernas naturais, conhecidas como gama. Estas já haviam sido utilizadas para abrigo durante o Bombardeio de 1944 e, com a invasão em 1945, muitos foram mortos ao se recusarem a sair. Em outros casos pessoas cometeram os suicídios forçados, como nas ilhas Kerama. O episódio mais conhecido é o da caverna Chibichiri-gama, onde 85 pessoas se mataram, com receio de serem torturadas e estupradas, conforme diziam os soldados japoneses. A maioria eram menores de 18 anos, mortos pelos próprios pais. Isso não aconteceu somente em Kerama e Yomitan, mas também em várias partes da província.

Cicatriz deixada por tentativa de suicídio em massa.
Fonte: 沖縄県平和祈念資料館(2014年).『総合案内』.
Armas encontradas próximas a locais onde ocorreram suicídios em massa.
Fonte: 沖縄県平和祈念資料館(2014年).『総合案内』.

Concluindo…

  • Já nos primeiros dias, houve uma grande quantidade de mortos. Chama a atenção que muitos foram civis, vítimas do suicídio forçado. Conforme falado no Boletim 01, a educação da Era Meiji, que valorizava a lealdade ao imperador, aliada às ameaças dos soldados japoneses, que ordenavam de maneira explícita o sacrifício, podem explicar o tamanho dessa tragédia. Além disso, os militares japoneses temiam que os civis revelassem informações importantes caso se tornassem prisioneiros de guerra, já que estavam bastante envolvidos nas construções e próximos aos batalhões.
  • A questão do suicídio forçado em massa é muito polêmica. Para os civis, é um tema extremamente doloroso e importante. O caso de Chibichiri-gama veio à tona de forma mais ampla somente nos anos 1980, devido ao sofrimento, vergonha e trauma de quem havia sobrevivido ao episódio da caverna. Para o governo japonês e conservadores, é um tema ignorado e silenciado – mesmo com os apelos da população okinawana para que seja ensinado nas escolas e assim, não se repita. (Para saber mais: temos um post sobre Chibichiri-gama, comparando-a com Shimuku-gama, onde não houve nenhuma morte – clique aqui.)
  • Sem nenhuma resistência, o exército estadunidense avançou rapidamente. Atravessaram rapidamente a ilha e chegaram na costa leste (atual Uruma) em 4 de abril. Uma parte foi em direção ao norte da ilha, alcançando Cabo Hedo (Hedo Misaki, extremo norte, em Kunigami) em 19 de abril.
  • Outra parte foi para o sul, onde estava a maior parte da população e das instalações militares. Nessa região houve o confronto com o exército japonês, com a população envolvida. A batalha foi sangrenta e duradoura, conforme veremos nas próximas edições.

Referências:

沖縄県平和祈念資料館(2014年).『総合案内』.

沖縄県高教組教育資料センター『ガマ』委員会(2013年).『沖縄の戦績ブック「ガマ」』.

OTA, Masahide. Essays on Okinawa Problems. Okinawa: Yui Shuppan, 2000.

Fotos:

Okinawa Prefectural Archives. Disponível em: https://www2.archives.pref.okinawa.jp/

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