Kumiodori é uma arte performática típica do Reino de Ryukyu que mistura teatro, música e dança. Criada por Tamagusuku Chokun (1684-1734), era exibida no Castelo de Shuri para os enviados chineses (sappoushi). Em 2010 foi designada pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Uma das obras mais famosas de Tamagusuku Chokun é o kumiodori “Shushin Kaneiri”. O personagem principal foi baseado em Nakagusuku Wakamatsu, senhor do Castelo de Adaniya (Adaniya gusuku), na cidade de Kitanakagusuku. Conheça a história:

Meu nome é Nakagusuku Wakamatsu, estou a caminho de Shuri para cumprir com meu trabalho. Eu me perdi na escuridão da noite.
Wakamatsu encontra uma casa e pede abrigo. Uma moça responde que seus pais saíram e, sozinha, não pode deixar que um homem entre em sua casa. Wakamatsu não desiste. Quando ela percebe que o visitante é um homem famoso, a moça permite que ele passe a noite lá.

A mulher se apaixona e insiste em se aproximar de Wakamatsu, que recusa as investidas.

É uma rara oportunidade te encontrar. Acorde, acorde. Quero conversar.
Wakamatsi: Chuu nu fachi iche ni kataru kutu nesami.
Nos encontramos pela primeira vez esta noite, não temos o que conversar.
Ela diz que se não podem ficar juntos então ambos devem morrer.
Wakamatsu a lembra de que tem que ir logo para Shuri e foge. Ele encontra um templo, onde implora para que o monge o esconda lá dentro:

Peço ajuda, não tenho a quem recorrer. Por favor, salve minha vida.
O mestre esconde Wakamatsu dentro do sino do templo e chama os monges, pedindo que vigiem e o protejam da mulher.

Quando o mestre sai, os monges fazem comentários sobre a mulher. Eles estão protegendo o sino, mas estão com sono (aqui tem uma cena de humor, na qual o monge de pé bate nos que estão dormindo, com efeito sonoro do taiko):

A mulher chega e os monges lhe dizem que não é permitida a entrada de mulheres. Porém, comentam sobre sua beleza e discutem entre eles se deveriam deixá-la entrar.

Até os insetos tem piedade, é lamentável que monges não tenham compaixão.
A mulher diz que se não puder ficar com Wakamatsu, não poderá viver. Ela se transforma em um demônio, em uma cena tensa e agitada que contrasta com o ritmo lento das cenas anteriores:

O mestre chega e percebe que algo está errado. Os monges dizem que eles não conseguiram conter a mulher, que procurou Wakamatsu em todo o templo e que sua fúria a transformou em um demônio. O mestre repreende os monges por terem desobedecido suas ordens. A única saída é rezar para que o demônio deixe o templo.

Vamos rezar e exorcizar o demônio com o poder do mantra.
Eles rezam o mantra e o demônio vai embora, dando fim à história.
O kumiodori ao qual assisti (de onde tirei as fotos deste post) foi feito por crianças que cantaram e dançaram maravilhosamente:

O ilustre Nakagusuku Wakamatsu aparece durante metade da peça. Na outra metade, permanece escondido enquanto o destaque é dado aos monges e à mulher, que apesar de ser personagem central, não tem nome. Aparentemente, há um claro contraste entre as duas personagens: Wakamatsu é um homem diligente, racional e tem consciência do seu dever de chegar à sede do reino em Shuri. A mulher, por outro lado, é emotiva e sua paixão obsessiva lhe traz graves consequências. É interessante observar que a moral que essa peça (criada há cerca de 300 anos na Ásia) carrega tem pontos em comum com estereótipos encontrados em outras épocas e outras sociedades.
O enredo foi criado por Tamagusuku Chokun, mas alguns aspectos foram baseados na realidade, como o personagem Wakamatsu e o templo.
O túmulo de Nakagusuku Wakamatsu está localizado em Adaniya, num parque que ganhou o seu nome. Acredita-se que ele era filho do rei Shoen (1415-1476) e da noro de Adaniya. Na mesma colina está o Adaniya gusuku, castelo do qual era o senhor. Esses vestígios físicos comprovam que Wakamatsu realmente existiu.

Outra curiosidade é que o templo deste kumiodori existe ainda hoje e está localizado dentro do Parque Sueyoshi, perto de Shuri. Apesar de pequeno, era um dos 8 templos mais importantes na época do Reino de Ryukyu.

Você pode ver o kumiodori “Shushin Kaneiri” completo neste video de uma apresentação na cidade de Kin-cho, que também teve a participação de crianças:
Fonte:
“Nufani”, de Naganori Komine, Okinawa Book Service Co, 2008.
Observação: a tradução das letras para o português foi feita por mim de forma aproximada, já que foi derivada da versão em inglês (e não da língua original de Ryukyu).

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