Aproveitando o Dia dos Professores, vou escrever um pouco sobre minha experiência como professora de inglês durante um ano numa escola pública de ensino fundamental (elementary school, ou shōgakkō) na região de Oroku, cidade de Naha.
(Quando me tornei “sensei”, lembrei dos ensinamentos do facebook – “o professor é o único profissional no Japão que não precisa se curvar para o imperador” – mas logo vi que #sqn).

Eu trabalhei como AET (Assistant English Teacher), cargo que em algumas cidades é chamado de ALT (Assistant Language Teacher). No Japão, as escolas de shōgakkō, chūgakkō (junior high school) e kōkō (high school) contam com professores estrangeiros fluentes em inglês para ensinar o idioma, junto com um professor japonês.
No caso do shōgakkō da cidade de Naha, as salas possuem um professor responsável, que ensina matérias como língua japonesa, matemática, estudos sociais, educação física etc. E para outras matérias, como música e inglês, há professores para auxiliar. O meu trabalho era planejar as aulas, fazer reuniões com os professores responsáveis, preparar os materiais e conduzir a aula. Como só me era permitido falar inglês, cabia ao outro professor explicar em japonês e dar as broncas.
Antes de conseguir o emprego, estava muito insegura pelo fato de não possuir certificados como o TOEFL e de não ser lá tão fluente em inglês. Mas como não era exigido o certificado, e com incentivos de amigos, fui atrás da vaga e acabei conseguindo. Foi uma experiência maravilhosa conhecer bem de pertinho o famoso e respeitado sistema educacional japonês. (Deixo as críticas para um post futuro).
O mais interessante da cidade de Naha é que ela valoriza a pluralidade de seus AETs. Além de americanos, havia professores da Alemanha, Filipinas, Austrália, Índia, Egito e muitos outros países. No shōgakkō, um dos objetivos era fazer com que as crianças tivessem contato com estrangeiros. Éramos incentivados a falar de nossos países, indo além da ideia de “estrangeiro = americano”, ou “aula de inglês = EUA”. Apesar de Okinawa possuir muitas bases militares e, consequentemente, um grande número de norte-americanos vivendo lá, nem sempre ocorre um intercâmbio e as crianças costumam ter pouco contato com estrangeiros.

Então, era muito legal falar sobre o Brasil. Trabalhei como AET em 2014, bem no ano da Copa do Mundo, e as crianças estavam loucas pelo Brasil e pelo futebol (que, de acordo com uma enquete que fiz na escola, divide com o beisebol o título de esporte preferido entre os alunos). Não só na escola, mas em todo o lugar o Brasil estava em evidência (chá mate, inúmeros doces de açaí, especiais na TV – às vezes eu até brincava dizendo que só consegui o emprego por causa da Copa). Uma vez um aluno perguntou se eu já tinha encontrado o Neymar. Muito fofos! Alguns iam com a camiseta da seleção brasileira (não havia uniforme). E tinha até uma menina que tinha a camiseta do São Paulo e do Palmeiras (perguntei do Corinthians e ela não respondeu…).
Outro objetivo era criar uma postura positiva em relação ao ensino de inglês. Ou seja, se divertir nas aulas do shōgakkō e entrar no chūgakkō com vontade de aprender mais, e aí sim, começar a estudar gramática de fato. Então, nas aulas, sempre havia músicas e jogos. Quando consegui o emprego fiquei preocupada em estudar e melhorar meu inglês, ler sobre pedagogia etc. Mas, quando cheguei lá, vi que era mais importante eu aprender a cantar e a ensinar músicas. E, também, a dançar e inventar coreografias. Uma colega americana dizia que ela pulava tanto na aula que todo dia depois do trabalho ela voltava pra casa e dormia. Eu não cheguei a esse ponto, mas no dia que dancei “Head, shoulders, knees and toes” (“Cabeça, ombro, joelho e pé”), umas 10 vezes, fiquei com o corpo todo dolorido.
Minha relação com os alunos era muito boa. Eles eram superfofos. Os mais novos, de 7 a 10 anos, eram mais carinhosos, alguns ficavam tocando, abraçando e vinham conversar comigo depois da aula. “Nossa, você tem muitos brincos!”, “Você lembra meu nome?”, “Meu pai tem uma padaria, sabia?”. Uma vez até se assustaram porque pintei minhas unhas de preto (“bikkuri shita!!”). Os mais velhos, de 11 e 12 anos, falavam: “Eu vou participar de uma competição de soroban”, “Eu faço curso de inglês”, “Você tem namorado?”, “O que você acha do xx sensei?”. Muitas vezes eu me fazia de desentendida, para que elas tentassem ao menos falar algumas palavras em inglês.

Como lá as crianças vão e voltam sozinhas da escola, eu também sempre encontrava alunos no caminho: “Karina senseeeei, Karina senseeei!!” E os encontrava também na loja de conveniência, no mercado e até no shopping. “Quem é esse, é seu namorado??”. Inclusive, até na casa do parente do meu namorado eu já encontrei uma aluna. As pessoas sempre falam que Okinawa é um lugar pequeno mesmo, então imagine andar no bairro de Oroku tendo 700 alunos circulando por lá.
Meu último dia de aula foi triste. Mas eu preparei jogos bem legais, e no fim, as últimas aulas foram as mais divertidas também. Recebi muitos presentes, a maioria mensagens de agradecimento e de “ganbatte” no meu retorno ao Brasil. E, na cerimônia de despedida, no palco, eu falei em japonês, surpreendendo toda a criançada. Pedi que viessem um dia ao Brasil. Pois, Okinawa é a província onde os jovens (de chūgakkō) têm mais interesse em viajar para o exterior (intercâmbio e trabalho) e é também a que mais oferece bolsas de estudo. Ou seja, não faltariam oportunidades para eles virem ao Brasil. Estou aguardando, e quando isso acontecer vou relatar aqui no blog também.
E, ao pessoal que tem interesse em trabalhar em Okinawa, essa é uma ótima opção. Recomendo!



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